A poesia, aqui, desce do pedestal e atravessa o asfalto. Entra no território, no telejornal, no consultório, na bula, no banco do jardim; encontra o rei, o crápula, o poeta, o gafanhoto e o homem que deseja uma vida longa sem saber o que fazer com ela.
Sérgio Almeida serve-se do absurdo, da paródia e do desvio verbal para expor pequenas pompas do quotidiano, a violência escondida no discurso e a vaidade dos que se julgam a salvo do ridículo. Nem o poema escapa: é interrogado, rasgado, engolido, anunciado como notícia de última hora ou abandonado num cesto de papéis.
A sátira de O Rei vai no pode ser cruel, mas não é estéril. Por detrás do disparate, do trocadilho e da irreverência permanece uma forma obstinada de lucidez: a convicção de que a linguagem, mesmo quando tropeça, ainda pode denunciar aquilo que a linguagem procura ocultar. E assim seguimos todos no cortejo, muito compostos e seguros nossa importância, enquanto o teu estrela ovos no asfalto.
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